PAULO BETTI E O MONÓLOGO NA ‘CASA DA DEMOCRACIA’

paulo betti foto ocytacilio

Por Rosayne Macedo

Considerado um dos mais importantes atores brasileiros, Paulo Betti é o criador, intérprete e diretor de ‘Autobiografia Autorizada’, peça teatral que teve única apresentação no Palácio Tiradentes (17/11). Após mais de uma dezena de shows musicais neste semestre, a antiga sede da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj), que está sendo transformada na Casa da Democracia, se consolida como um novo espaço cultural do Centro do Rio.

Foi a primeira vez que Paulo Betti esteve no Palácio Tiradentes e ele se mostrou encantado: “É muito emocionante e uma alegria apresentar nosso espetáculo aqui. E fico feliz em saber que a destinação desse espaço está sendo feita voltada à cultura”, comentou, destacando a importância histórica do prédio, construído há quase 100 anos, e todo o seu mobiliário.

‘Autobiografia Autorizada’ é o primeiro espetáculo do projeto ‘Arte de Inventar a Vida”, produzido pela Fundação de Artes Anita Mantuano do Rio de Janeiro (Funarj), em parceria com a Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj), por meio da Subdiretoria de Cultura, que tem Nelson Freitas à frente. “O objetivo é aproximar o público do artista através da linguagem teatral, contribuindo para a formação de plateia”, explicou Freitas.

A peça estreou em 2015 para celebrar os 40 anos de carreira de Paulo Betti e já passou por diversos estados brasileiros, além de Portugal. Este ano, ganhou nova versão para circular por algumas cidades fluminenses. O monólogo já passou por 10 teatros nos municípios do Rio, São Gonçalo, Petrópolis e Nova Iguaçu. A próxima apresentação será no Teatro Laura Alvim, em Ipanema.

É a primeira vez que o monólogo ganha uma temporada popular. Após cada apresentação, Paulo Betti ainda se aproxima do público para sessão de fotos e interage para trocar ideias sobre cultura e educação, dar dicas e responder às perguntas. Para o ator, a proposta desse projeto é retribuir à sociedade tudo o que recebeu. “Minha fixação pela memória da infância e adolescência, passada num ambiente inóspito e ao mesmo tempo poético, talvez mereça ser compartilhada no intuito de provocar emoção, riso, entretenimento e entendimento”, resume o ator.

Escrita por Betti, a partir de registros captados por ele ao longo da vida, documentos e imagens do modesto álbum da família, ‘Autobiografia Autorizada’ conta, com bom humor e muito afeto, a história da vida do ator, desde sua infância na pequena Rafard, até mudar-se para Sorocaba. Entre idas e vindas do pai a sanatórios, Paulo cresceu e pôde estudar, graças à patroa de sua mãe, que o matriculou numa creche da cidade. Bem diferente da maioria dos seis irmãos que sobreviveram – Adelaide perdeu 8 filhos de gestações anteriores.

Aliás, o hábito de escrever e registrar suas memórias – muitas além do seu testemunho eram obtidas a partir da oralidade dos irmãos, da mãe e de outros familiares – foi a chave para produzir o espetáculo com riqueza de detalhes, todos reais, imprimidos no espetáculo impressionou a plateia que, ao final, conversou com o ator para entender o seu processo de criação da obra. Betti fala e exibe os registros feitos em folhas de anotações, como o passaporte do pai, de 1887, que ele herdou e o ajudou a garantir mais tarde a cidadania italiana.

A peça também mostra diversos momentos importantes da História do país, a começar pela própria formação do povo brasileiro, influenciada pelos imigrantes. Paulo Betti é descendente de italianos que vieram a bordo de um mesmo fugidos da miséria na Itália e seduzidos pelo sonho de riqueza num país diverso e próspero, mas não conseguiram enriquecer. Ao contrário, viveram de forma humilde num antigo quilombo, em uma região habitada por muitas famílias.

A forte influência do rádio na vida dos brasileiros também é registrada em um trecho do espetáculo, em que Betti narra jogos da Seleção Brasileira, com Pelé, Garrincha e outros astros do futebol, da mesma forma como eram narrados nas emissoras. Sua paixão pelo rádio surgiu enquanto aprendia com a mãe a passar roupas no ferro a brasa.

A comida feita no fogão a lenha, os passeios na bicicleta de segunda mão, as estripulias de menino pelas ruas são outras reminiscências. Também ganham ares de nostalgia o primeiro banho de mar, aos 18 anos; o gosto pela música, do gospel ao samba, influenciado pelos vizinhos negros que tocavam instrumentos de sopro, entre muitas outras peculiaridades.

Reconhecido e premiado como um dos mais versáteis atores brasileiros, Paulo Betti já fez mais de 40 peças teatrais (12 delas como diretor), dezenas de novelas, filmes e séries brasileiras. Mas tinha o sonho de protagonizar um monólogo. Chegou a cogitar contar a história de outro ator, mas sua consciência de classe não permitiu. “Não podia falar de alguém de classe média que tinha uma empregada. Minha mãe foi uma empregada doméstica”, disse. E mudou de ideia, resolvendo falar sobre sua própria vida, a partir de seus escritos.

“Mas eu tinha a preocupação de não parecer um projeto ególatra e ninguém querer assistir”, destacou, com simplicidade. Provocado pelo público, o ator revelou que pensa escrever uma segunda parte do espetáculo, contando mais experiências vividas na adolescência e juventude. Como a vida estudantil num dos melhores colégios públicos da cidade, o início da carreira no teatro amador, onde ganhou prêmios e se notabilizou na região, entre outras histórias.

* Rosayne Macedo é jornalista da Comunição/ALERJ