Palácio Tiradentes Revitalizado

Dos vitrais às fachadas e esculturas, sede da Assembleia Legislativa passa por restauro ao completar 90 anos

No ano em que celebra nove décadas de existência, a sede da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj) ganha roupa nova. Já estão sendo restauradas as fachadas do prédio histórico, além de portas e janelas de ferro e madeira. O sistema de ar condicionado será substituído. Os grupos escultóricos também precisam de reparos. “Os danos são causados, principalmente, pela poluição. A fachada e as esculturas estão muito sujas, e há rachaduras, trincas e peças faltando”, explica a arquiteta, Lenise Severino, do Departamento de Engenharia da Alerj. “O maior desafi o é fazer isso com o prédio funcionando. É como trocar o pneu com o carro andando.” O último restauro foi em 1999. O objetivo é preservar o patrimônio do Palácio Tiradentes, um dos prédios mais emblemáticos do corredor cultural do Centro do Rio de Janeiro, repleto de importância histórica, arquitetônica e política, tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). “O restauro traz de volta ao auge um dos monumentos do Estado com mais visitações permanentes. O Tiradentes é um patrimônio não sdo Estado e também do Brasil”, ressalta o subdiretor-geral de Engenharia da Alerj, Eduardo Paixão. A empresa Concrejato venceu a licitação para executar o serviço ao custo de R$ 17,4 milhões – R$ 3,5 milhões a menos que a estimativa inicial do pregão, de R$ 20,9 milhões. A verba é do fundo da Alerj, fruto de economia da Casa. O trabalho de recuperação das fachadas é realizado em etapas, na seguinte ordem: lateral do Largo do Paço; fundos, na Rua Dom Manuel; lateral da Rua São José e, por fi m, a entrada principal. Na última etapa, será preciso refazer partes destruídas das estátuas e detalhes das fachadas: “Existem volumes que estão faltando. Então, o artesão terá que confeccionar. É um trabalho artístico e de muita técnica”, afi rma a arquiteta. Um dos grandes desafi os é a recuperação do vitral da cúpula. Um trabalho minucioso e artesanal. São 139 peças, compostas por mais de quatro mil vidros. “Caixotes especiais tiveram que ser feitos. As peças somam cerca de 100m² e, com o castilho de ferro, pesam 2,8 toneladas”, afirma o vitralista responsável pelo restauro, Luidi Nunes.

Segundo ele, os vidros coloridos são cobertos por uma pintura esmaltada sujeita a um ataque químico, que deixa os vidros esbranquiçados. O chumbo que dá forma à estrutura também será refeito, e todas as peças são registradas durante o processo: “Quando termina, elas são, de novo, todas fotografadas. Serve como um controle geral e como documento para o futuro. Se alguém precisar, daqui a 200 anos, é só ir lá”, garante. Outro ponto importante do processo é a substituição do sistema de ar condicionado por um novo, 40% mais econômico. “Os novos equipamentos são mais modernos, eficientes e com menor custo de manutenção e consumo de energia”, explica Eduardo Paixão.

Arte e vidro

Técnica, esmero e delicadeza são pré-requisitos para dominar a arte milenar dos vitrais. Em caso de restauro, todo o cuidado é pouco: as peças são embaladas em isopor e caixas de madeira, desmontadas e lavadas. O chumbo que sustenta os vidros é descartado e trocado por outro recém-fundido. Cada peça é colocada sobre uma mesa de luz, e seu desenho original é registrado para que não se perca. Quando um vitral está quebrado, é preciso encontrar a combinação de cores perfeita para substituí-lo. O vitral da cúpula do Palácio Tiradentes passa por esse processo pelas mãos do vitralista Luidi Nunes. (foto acima) O início na carreira foi apenas por hobby. “Fazia faculdade de Física, mas sempre fui apaixonado por vitral”, conta ele, que acabou se rendendo à paixão. Hoje, o paranaense, aprendiz do italiano Alberto Magini, comanda um ateliê na Zona Norte do Rio. Em 40 anos de carreira, ele já fez mais de três mil trabalhos, muitos deles emblemáticos, como na Catedral Metropolitana de Brasília, no Theatro Municipal do Rio e até em uma igreja em Nova York. O vitral da cúpula do Tiradentes foi confeccionado por Cesar Alexandre Formenti, um dos pioneiros dos vitrais no Brasil. “Ele tem um valor simbólico grande, pois representa a posição das estrelas no céu na noite da Proclamação da República, em 15 de novembro de 1889”, diz Nunes.

“O restauro traz de volta ao auge um dos monumentos do Estado com mais visitações permanentes. O Tiradentes é um patrimônio não sdo Estado e também do Brasil”

Subdiretor-geral de Engenharia da Alerj, Eduardo Paixão.

Um Palácio de Histórias - Tiradentes aos 90 anos

O Palácio Tiradentes, que completa 90 anos, se destaca por sua beleza arquitetônica e imponência. A sede do Poder Legislativo fluminense guarda parte da história que começou nas primeiras décadas do século XVII.  A região próxima ao cais da Rua Dom Manuel (atual Praça XV) se firmava como o mais importante centro político e financeiro do Brasil Colônia. Em 1640, começou a ser construída  a edificação que funcionaria como uma câmara que representasse os interesses da Coroa Portuguesa em terras brasileiras.  Só em 1747 foi inaugurado o edifício colonial da Câmara e da Cadeia Velha, abrigando, em 1823, a primeira Assembleia Geral Constituinte Brasileira. Até 1914, o prédio foi sede da Câmara dos Deputados e, em 1921, foi demolido para dar lugar ao Palácio Tiradentes, inaugurado em 06 de maio de 1926. No período republicano, a grandiosa fachada representava a tendência e o arrojo arquitetônico da época. Inspirada no Grand Palais de Paris, teve influência da Belle Époque, já que a referência urbanística do Brasil no início do século XX eram as cidades europeias. A construção, seus adornos e obras de arte tornaram o Palácio Tiradentes referência e cenário do processo legislativo do Brasil e hoje inserido no Corredor Cultural do Rio de Janeiro.

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História do Palácio – Degraus do povo

Se essa escadaria falasse… A expressão define bem a trajetória dos inúmeros episódios que tiveram como palco a frente do Palácio Tiradentes, que, diga-se de passagem, tem o que contar. A verdade é que, nas últimas décadas, a voz de milhares de cidadãos dos mais diversos ideais reverberou na Praça XV. Em 1968, a sede da Alerj foi ocupada por milhares de pessoas na concentração da histórica Passeata dos 100 mil, a mais importante manifestação popular de protesto contra a ditadura militar no Brasil. Desde então, as manifestações populares tomaram a escadaria de assalto, fazendo surgir ali movimentos e líderes. Dos protestos contra animais em circo, em 2001, às “manifestações pelos 20 centavos”, contra o aumento das tarifas de ônibus, em 2013, teve de tudo. Essa última culminou com a depredação de várias alas e vitrais do Palácio Tiradentes – parte do material já foi recuperado Professores, agentes de saúde, ambientalistas, policiais civis e militares, enfi m, todos deixaram sua marca nas escadarias. A mais recente manifestação, no dia 25, ocorreu em defesa dos direitos da mulher. O ato, no Dia Mundial de Combate à Violência contra a Mulher, teve início na escadaria da Alerj e, depois, tomou o Centro do Rio.

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Um Palácio de Histórias – Casa do poder federal 

O primeiro presidente da República a tomar posse no Palácio Tiradentes foi Washington Luiz, em novembro de 1926. Ele foi deposto em 24 de outubro de 1930, 21 dias antes do término do mandato, por um golpe militar, passando o Poder para as forças repressivas comandadas por Getúlio Vargas. Em menos de um mês, o novo presidente ordenou o encerramento das atividades do Congresso Nacional e fechou as portas do Palácio Tiradentes pela primeira vez. Esse fato viria a ocorrer novamente em 1934, para a instalação do Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP). A última cerimônia de posse de um presidente da República no Tiradentes foi em 1956, quando Juscelino Kubitschek, com João Goulart como vice, chegou ao Poder. A era JK foi o início de uma nova fase na história do Palácio. A capital do Brasil mudou-se para Brasília em 1960 e, no dia 4 de abril do mesmo ano, a Lei Santiago Dias transformou o antigo Distrito Federal em Estado da Guanabara. E os mandatários da Nação deixaram as dependências do prédio da Praça XV. Com a fusão entre Rio e Guanabara, em 1975, tem início as bases para a implantação da Alerj. Em 6 de abril de 1960, foi realizada a última sessão da Câmara dos Deputados no plenário do Palácio Tiradentes.

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