Lenda urbana: Assombrações do Arco do Telles

Sumiço dos primeiros documentos da cidade e a história de uma bruxa sanguinária

são apenas alguns dos casos mais conhecidos do famoso point da Praça XV

 

*Por Letícia Loureiro

Não há dúvidas que o Arco do Teles é um dos mais conhecidos points da Praça XV, no coração do Centro do Rio. Última peça sobrevivente de um antigo sobrado para ricaços erguido no século XVIII, ele guarda mais histórias e mistérios que a turma animada que costuma encerrar o expediente nos bares que funcionam ao seu redor, mal poderia supor. Lendas que falam do sumiço dos primeiros documentos da cidade e até da existência de uma bruxa sanguinária que, até hoje, ainda assombraria o local.

Tudo começou em 1743, logo após a construção da Casa dos Governadores (atual Paço Imperial), quando a região da Praça XV começou a tomar do Morro do Castelo o posto de área mais próspera e importante da cidade. Astuto, o juiz português Antônio Telles Barreto de Menezes, comprou alguns terrenos por ali e construiu um enorme casarão. Seu objetivo era alugar imóveis para os comerciantes de classe média que começavam a ocupar o próspero entorno do largo. Só que o projeto tinha um problema: a construção bloquearia o acesso do novo centro comercial ao mercado de peixes. A solução proposta pelo engenheiro José Alpin foi abrir um arco para permitir a passagem do Largo para a Travessa do Comércio.

Nos anos 1790, a antiga Casa de Câmara e Cadeia precisou passar por uma reforma e transferiu para um dos imóveis do casarão dos Telles de Menezes toda a documentação referente aos primórdios da cidade, incluindo registros de imóveis e cobrança de foros (um tributo semelhante ao nosso atual IPTU). Até que, certa madrugada, um misterioso incêndio começou em uma loja de objetos usados curiosamente chamada “O caga negócios” e se alastrou pelo casario, destruindo toda a papelada. Do edifício sobrou apenas o que passou a ser conhecido como o Arco do Teles.

Naquele mesmo ano, desembarcou no Rio o casal Antônio de Urpia, um fidalgo português, e sua belíssima esposa, Bárbara, de apenas 20 anos. Há duas versões para a vinda deles ao Rio. E nenhuma é boa. Na primeira, Bárbara teria envenenado a própria irmã em Portugal e fugido para a colônia. Na segunda, ele teria tido uma relação extraconjugal (e aprovada pelo marido), com um nobre português de altíssimo escalão que teria enviado o casal ao Brasil a mando de autoridades ainda mais importantes para abafar o escândalo.

A beleza estonteante de Barbara chamou atenção da sociedade carioca de então e abriu portas para o casal na corte do vice-rei, o Conde de Resende. Mas apesar de ter todos os homens da cidade aos seus pés, ele foi se apaixonar por um negro liberto, que conheceu durante uma serenata. Cega de amor pelo ex-escravo, ela matou o marido com uma facada na nunca enquanto ele dormia. O assassinato a fez cair em desgraça, mas ela não foi presa, e precisou mudar-se com o amante para a então má-afamada região da Cidade Nova. Uma noite, durante uma discussão financeira, Bárbara matou seu segundo companheiro. Mas, supreendentemente, escapou novamente da Justiça.

A viçosa viúva, sem eira nem beira ou tostão no bolso, precisou então recorrer à prostituição e passou a bater ponto exatamente debaixo do Arco do Teles. No início atendia nobres e até bispos. Mas com o passar do tempo contraiu doenças como sífilis, lepra e varíola. Na busca da juventude e beleza perdidas, ela passou a recorrer à Magia Negra. E por sugestão de um feiticeiro passou a tomar banhos com sangue fervido de animais a fim de curar sua lepra. Mas nada parecia funcionar. Foi então que outro bruxo lhe sugeriu algo que seria supostamente infalível: em vez de animais, Bárbara deveria usar crianças para banhar-se em seu sangue ainda fresco e morno. Em 1828, o município passou a registrar uma série de desaparecimentos de crianças, cujos corpos nunca eram descobertos. O pânico se instalou na cidade. As crianças foram proibidas de brincar desacompanhadas e muitas famílias passar a trancar seus filhos em casa com medo da “Bruxa”. Segundo alguns linguistas foi justamente nessa época que teria surgido a famosa expressão: “cuidado que a bruxa está solta!”.

Pelos relatos dos jornais de então, Bárbara teria passado então a roubar recém-nascidos na “roda dos enjeitados” da Santa Casa de Misericórdia, uma portinhola giratória usada para que os frutos de partos indesejados pudessem ser deixados ao cuidado das freiras. O abandono de bebês na Santa Casa diminuíra drasticamente, o que logo se associou à crueldade da “bruxa”. Dizem que Bárbara pendurava as crianças pelos pés com uma corda, as esfaqueava e ficava embaixo delas para banhar-se no sangue. Em 1830 Bárbara desapareceu e o sumiço das crianças cessou. Logo em seguida um corpo de mulher apareceu boiando no mar em frente à Praça XV. E embora o rosto estivesse desfigurado e irreconhecível todos se convenceram que se tratava de Barbara.

Difícil saber ao certo o quanto dessa história efetivamente aconteceu e o quanto foi amplificado pelos cronistas da época e pela tradição oral da cidade. Mulheres que ousavam viver suas vidas sem marido, fora dos padrões, eram constantemente acusadas de bruxaria e, até mesmo, de crimes que eram cometidos por homens, muitas vezes da alta sociedade. O fato é que a lenda de Bárbara, conhecida como “Onça” ou “Bárbara dos Prazeres” sobrevive e, até hoje, há quem jure “de pé junto” que, no Arco do Teles, quando todo o comércio está fechado e não há mais o movimento de bares e boates, seria possível escutar as gargalhadas de uma mulher em noites sem luar.

No início do século XX a travessa e o arco voltaram a ser valorizados. Na década de 20, a família de Carmen Miranda morou durante seis anos no sobrado de número 13 da Travessa do Comércio, onde a mãe dela vendia comida. Já no século XXI, o Arco do teles tornou-se referência por sua vida noturna, sejam os happy hours nos diversos bares e botecos da Rua do Ouvidor, pelas festas nos casarões da Travessa do Comércio, sambas e eventos noturnos.

 

*Publicação em “LEGADO – Caderno de Leitura ALERJ, Ed.II/2021”

Abaixo, bico de pena retratando o Arco do Telles no  século XIX e ilustração atribuída a Barbara dos Prazeres na “Roda dos Enjeitados” da Santa Casa.

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